Com muita
dificuldade, ele torceu o corpo para o lado de fora da cama e segurou a
cabeceira com o máximo de força permitida a alguém no seu estado de saúde. Sentou-se
e um suor frio escorreu dos cabelos ruivos até a barba escassa e grisalha.
Antes de
levantar-se, ele observou as poucas coisas que lhe restaram, entre elas: dois
livros, um vaso de planta, que há tempos não floresce, e uma carta guardada,
amarrotada e, durante anos, esperada. Foi tomado, mais uma vez, por sentimentos
e lembranças do passado, até que foi interrompido.
– Bom dia, seu Antônio! Já está
de pé? Então vamos lá, já está na hora!
Ele estendeu
as mãos pedindo ajuda para se levantar, a jovem franzina impulsionou o homem para
fora da cama e o conduziu a uma espécie de ambulatório, que fica ao lado dos
dormitórios.
- De novo? Toda semana eu venho
pra cá...
- Fique tranquilo, são exames de
rotina. Ordens médicas, seu Antônio, ordens médicas!
Na manhã em
que completava 70 anos, Antônio não sentia forças e, nem mesmo, disposição para
contrariar a jovem que estava ali para cuidar de dezenas de vidas que, antes de
se tornarem velhos, doentes, abandonados e até mendigos, tinham uma vida.
- Temos que dar graças a Deus por
viver num lugar como esse, pois se vivêssemos numa tribo primitiva, com os
problemas de saúde que temos, estaríamos condenados a morrer asfixiados depois
de sermos enterrados vivos. – disse Durval, um homenzarrão, que chegou amparado
por um enfermeiro, para receber medicamentos paliativos para combater uma asma
crônica, resultado de anos dedicados ao fumo.
- Você é um velho esclerosado e não
sabe o que diz. Você ainda não percebeu que isso aqui não passa de uma
condenação disfarçada de caridade? – contestou Antônio.
O caminhar
vacilante deste funcionário público aposentado afrontam a imagem do homem forte
que dedicara sua vida ao trabalho e à família, formada pela esposa e o único
filho, que viajou a trabalho para outro estado e nunca mais deu sinal de vida.
Depois de
serem avaliados pela equipe médica Antônio e Durval se unem a outros moradores
da Casa da Esperança, localizada na Rua da Amizade, s/n, em um bairro do
Recife. Pelos corredores, ele vai encontrando aqueles que com mais dificuldade
se arrastam até a sala principal do velho casarão.
- Rapazes, me esperem. – disse a
senhora que caminha com a ajuda de muletas conhecida por Dorinha. Ela mora na
casa desde que ficou viúva e os filhos disseram não ter condições de cuidar
dela naquele momento.
- Ande, vamos logo! Você não sabe
que aqui temos hora pra tudo. Hora pra acordar, hora pra comer, hora pra tomar
banho, hora pra dormir... – respondeu Antônio.
O café da
manhã naquele dia era especial. Antônio não sabia, mas haviam preparado uma
surpresa para comemorar seu aniversário. Dorinha e as outras mulheres
prepararam o bolo, que estava à espera do aniversariante junto com os demais
moradores.
Ao entrar na
sala onde sempre é servido o café da manhã, um grande coral de vozes
entusiasmadas, embora trêmulas, o receberam. Antônio olhou vagarosamente para
todas aquelas pessoas como se tentasse reconhecer em alguma delas um rosto
familiar que há muito tempo desejara rever.
Ele franziu a
testa, que mais uma vez ficou encharcada de suor, e apertou os olhos castanhos
e profundos, em busca daquele que traria de volta o bem-estar, perdido pelos
cômodos daquela casa. Mas foi em vão!
Antônio sentiu
a carta imprensada entre os dedos velhos e rígidos que se apoiavam no bolso da calça.
Nela estava a frase que alimentou durante meses a sua esperança: “Pai, estou
voltando!” Como a melodia de um disco gasto e arranhado, aquelas três palavras
se repetiam e ecoavam, aumentando a expectativa dele.
No entanto, em
poucos minutos, um gosto amargo tomou conta do paladar de Antônio e a alegria
deu lugar à desesperança. O coração, que batia acelerado, voltou ao ritmo lento
e descompassado. Ele teve a certeza de que não passava daquele dia. “Não tenho
mais motivos para esperar”, pensou.
Constrangido e
sem compartilhar da alegria que era expressa por todos que o cercavam, Antônio
aceitou a ajuda do homem de sorriso largo que se aproximou dele e lhe
cumprimentou como um velho conhecido. Antonio não o reconheceu e pensou que
fosse mais um daqueles voluntários bonzinhos que apareciam nos dias de visita para
fazer companhia aos velhinhos dementes, cujas memórias não lhe permitiam
lembrar sequer se já haviam tomado o punhado de remédios, há cinco minutos.
- Ajude-me a
chegar ao meu quarto. Não me sinto bem! – disse Antônio, segurando forte nas
mãos que há mais ou menos 40 anos agarravam com medo as barras de suas calças.
Os homens
seguiram juntos como dois amigos que tinham muito que conversar. Os convidados
da festa acompanharam quietos os movimentos dos dois que caminhavam
semelhantemente com os ombros caídos e os passos curtos como se abrissem
passagem numa estrada coberta por matos.
Numa inversão
de papéis que só a vida é capaz de proporcionar, sentado na cama, o homem mais
novo contará histórias para o mais velho, até o momento em que este, aliviado,
decidirá a hora de dormir.
Manuela Paixão
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